segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Drácula de Stoker tem todos os elementos que conhecemos nos últimos 100 anos

     Filmes de vampiro sempre me deram muito medo. Na verdade, qualquer filme de terror sempre me deixava muito impressionado durante e depois da sessão. Não sei se é uma coisa própria da juventude, aquela coisa de ser muito influenciável, mas, fato é que ficava muito assustado. E, mesmo assim, como todo medroso, continuava indo aos cinemas para ver fenômenos do além e quase me borrar nas calças.

    Ler Drácula de Bram Stoker, claro, me fez pensar em todo este processo que tive que passar e a superação do medo que só chegaria com a maturidade. A obra do escritor Irlandês é uma maravilha. Um resumo de tudo o que lemos e assistimos ao logo dos últimos 100 anos envolvendo aquela figura sinistra e elegante. Todos os conceitos criados em torno do tema estão ali na obra de Stocker.

Meu exemplar

    Uma curiosidade sobre a história é que, em 1922, o diretor alemão Friedrich Wilhelm Murnau, lançou o filme Nosferatu. A obra foi baseada no livro de Stoker, no entanto, os produtores do filme tiveram que fazer algumas alterações no enredo e em nomes de personagens. Ocorre que, a viúva do escritor era a proprietária intelectual da obra e negou vender os direitos autorais da história. Por isso, foi necessário mudar o nome do filme e até o nome do vampiro que foi rebatizado para Conde Orlock, um corcunda, careca, com orelhas pontudas, unhas grandes e dentes assustadores. Igual a imagem que aparece na capa de meu exemplar.

    Como eu disse está tudo lá na obra original. Até mesmo a referência a Nosferatu aparece no texto de Stoker para lembrar que se trata de um sinônimo para vampiro em língua húngaro-românica.

    Estão lá a ideia do uso de alho para espantar, a estaca no coração e decepagem da cabeça para aniquilar a fera.

    Bram Stoker também criou outro personagem no livro que virou filme mais recentemente. Trata-se de um especialista em vampiros, chamado Abraham Van Helsing que, no livro, é solicitado por um amigo para ajudar na caçada ao conde. O personagem, não por acaso, carrega o mesmo nome do autor, uma vez que Bram é uma redução do nome original Abraham.

    Ao ler o livro, fique atento à narrativa. O autor foi muito criativo ao colocar as falas dos personagens a partir dos diários de cada um deles e de cartas trocadas entre amantes e amigos.

    Enfim, Drácula, publicado em 1897, ainda é uma grande referência literária. Ao lê-lo não se assuste ou, melhor, não se decepcione ao perceber que o Drácula mesmo aparece pouco durante a história. No entanto, o medo está sempre presente em todas as páginas enquanto aquele grupo parte para a grande caçada. E eu me assustei só um pouquinho.

sábado, 22 de outubro de 2022

O Homem Invisível permanece

 Num dia frio, em meio a um vento cortante e brava nevasca, numa cidade pequena da Inglaterra, num modesto hotel de madeira, chega um homem encapotado, de chapéu e com bandagens brancas cobrindo o rosto. Talvez não soe parecido com a história que você conhece, mas este é o início do clássico “O Homem Invisível”, de autoria de Herbert George Wells, escrito em 1897, tantas vezes referenciado, especialmente no cinema. Na história original, o personagem principal, cujo nome demora para ser revelado, se vê às voltas para conseguir se beneficiar da situação criada a partir de uma experiência científica ao mesmo tempo em que vai se tornando cada vez mais irascível na busca de um antídoto para a “maldição da invisibilidade” que o isola da vida em sociedade. 

A primeira versão para a tela grande, produzida em 1933, foi num tempo em que o cinema ainda engatinhava em termos de som. O icônico “O Cantor de Jaz”, de 1927, possuía algumas falas e cantos sincronizados com disco de acetato, sendo considerado o primeiro longa sonoro da história. Menos de seis anos depois, “O Homem Invisível” chegava às telas ainda com atores fazendo aquela exagerada interpretação teatral, resquício do cinema mudo quando a ênfase nas expressões eram necessárias para o púbico poder compreender melhor.

O filme em relação ao livro segue praticamente o mesmo enredo com a inclusão de personagem feminina, noiva do protagonista, inexistente na história original. O efeito especial para caracterizar a invisibilidade, imagino, para a época, tenha causado grande impacto e ainda hoje pode ser considerado bom.

Mas, a criatividade do autor aliada ao seu lado cientista criou uma narrativa que supera em muito a obra cinematográfica. O escritor inglês, morto em 1946, foi destacado biólogo e professor universitário. Mais do que um livro de terror, na verdade, não é terror, a trama combina humor, questionamentos sobre o comportamento humano, desprezo e solidão.

Depois do primeiro filme, surgiram muitas outras versões para “O Homem Invísivel”. Cada uma delas com bastante criatividade e qualidade. No entanto, o livro, a ideia original, de Wells, permanece, visivelmente.

terça-feira, 22 de março de 2022

Cem Anos de Solidão

 

    Como alguém pode ser tão criativo, pode escrever um livro tão bom quanto esse? Cem Anos de Solidão tem tanta coisa que a gente fica meio assim, assim de falar. É uma obra mágica, inspiradora.

    Gabriel Garcia Marques é um escritor sensacional e muito modesto. Dizem que após escrever a obra-prima de sua carreira teria dito que não esperava grande coisa daquele texto. Mas, basta que, Cem Anos de Solidão é considerado um dos livros maiores da língua espanhola, perdendo, talvez, para Dom Quixote, tendo até hoje uma venda estupenda.


    Um livro difícil de explicar, difícil de destrinchar assim em poucas linhas. É um enredo de outro mundo, engraçadíssimo. Há milhares de histórias dentro das histórias, há o tempo que vai e vem, há personagens de nomes idênticos, há mulheres fortes de nomes bem diversos. Se você tem problemas para gravar nomes de personagens, como eu, prepare-se bem.

    Já ouvi que a literatura que Gabo, como é chamado em seu país natal, a Colômbia, faz se chama Realismo Fantástico ou Realismo Mágico. Ele mesmo não aceita estes rótulos, mas muita gente o trata assim. O fato é que histórias maluquinhas de gente com seus comportamentos estranhos, da família de ciganos que sempre volta à cidade com as últimas novidades do mundo exterior, de fantasmas que habitam Macondo, onde choveu cinco anos sem parar, fundada pela família Buendia, brotam na obra e concorrem para que o encaixotamento do autor nesta nomenclatura não seja tão absurdo assim. As semelhanças com passagens bíblicas também dão este ar fantástico à narrativa.


     Macondo foi fundada pela família do patriarca José Arcádio Buendia e a matriarca Úrsula Iguarán num local distante, isolado no tempo e no espaço. Descolada do mundo, a família perpassa cem anos e suas gerações se repetem, se copiam. O uso de nomes iguais para os homens da família reflete bem essa ideia de continuidade, essa mesmice, o círculo da vida, etc; quem não conhece famílias que usam nomes iguais para seus descendentes como forma de homenagear uns aos outros?

    Todos na história, de certa forma, vivem uma espécie de solidão.

    Minha leitura original do livro foi num exemplar que adquiri num sebo. Uma edição em brochura da Record que guardo até hoje. Apesar de menos apto à época para ler tal envergadura de escrita (entre outras, tive que buscar no dicionário o significado de diáfana), indicada entusiasticamente pelo meu primo Leandro Ramirez, fiquei maravilhado com a história. E assim como me recomendaram um dia, também recomendo agora a leitura imediata para os incautos que ainda não a fizeram.

    Depois, me diga se esta não é uma das passagens mais hilárias da obra quando o cigano Melquíades chega de viagem usando uma dentadura:

De modo que todo mundo foi à tenda, e com o pagamento de um centavo viu um Melquíades juvenil, refeito, desenrugado, com uma dentadura nova e radiante. Os que recordavam as suas gengivas destruídas pelo escorbuto, as suas bochechas flácidas e os seus lábios murchos, estremeceram de pavor diante daquela prova decisiva dos poderes sobrenaturais do cigano. O pavor se converteu em pânico quando Melchíades tirou s dentes, intactos, engastados nas gengivas, e mostrou-os ao público por um instante – um instante fugaz em que voltou a ser o mesmo homem decrépito dos anos anteriores – e botou-os outra vez e sorriu de ovo com um domínio pleno de sua juventude restaurada.”


domingo, 27 de fevereiro de 2022

Dom Casmurro é imperdível para qualquer tipo de leitor


Quando li Dom Casmurro, há mais de 30 anos, o fiz pela dívida que tinha com a literatura brasileira. Precisava ler urgente escritores brasileiros, coisa que não havia feito ainda. Já estava na universidade cursando jornalismo e não foi, portanto, pensando em provas de vestibular, ou algo parecido. Foi com este espírito que li vários outros títulos da obra machadiana como a Mão e a Luva, O Alienista, Memorial de Aires, Memórias Póstumas de Brás Cubas e um livro de Contos e me dei por satisfeito com o autor.

À época, nem sabia da polêmica do mundo literário em torno da traição de Capitu. Para mim ficou claro que Bentinho fora traído por ela e seu melhor amigo Escobar.

As leituras iniciais de Machado de Assis foram um desafio na medida em que exigiam constantes idas ao dicionário para decifrar uma escrita que este incauto leitor não dominava. Várias vezes, em Dom Casmurro, parei para respirar e retomar algum capítulo onde havia perdido o fio da meada. 

Com mais tranquilidade e deleite reli há pouco o mesmo livro já não com tantas interrupções. Mesmo assim, não pretendo fazer aqui uma análise do romance, tantas vezes já reverenciado por inúmeros autores. Vou deixar para os especialistas.

Se não me falha a memória, Umberto Eco um dia manifestou sua admiração pela obra, bem como Woody Allen a colocou entre as suas preferidas. Fico com uma pequena observação de um editor: A arte de Machado de Assis faz-nos ver um duplo Dom Casmurro, uma dupla Capitolina, um Escobar ambíguo.

O exemplar castigado pelo tempo que guardo comigo foi comprado num sebo de Ponta Grossa (PR) ao preço de Cr$ 20,00 cruzeiros. Certamente paguei uma bagatela pelo estado avançado de decomposição que já apresentava então e porque a moeda, assim como o governo naquela época, nada valia. Era o período do governo de Fernando Collor de Mello.

Relembrar as histórias de Machado de Assis sempre me remeterá ao tempo da universidade. Bentinho, Capitu e Escobar e eu fomos testemunhas daqueles dias que deram um novo rumo a minha vida. 

 Não há como não apreciar a narrativa de Machado de Assis nesta história cativante e cheia de idas e vindas. E é bom prestar atenção também na forma como o narrador conta tudo. Por isso, Dom Casmurro é imperdível para qualquer tipo de “lentes”. Coisas de Machado de Assis.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

História Social da Criança e da Família – quando não existia infância

 

Alguns conhecimentos marcam a gente e ficam para sempre. É como aquela frase que ouvi de um palestrante: “aprendizado é para sempre!” A História Social da Criança e da Família, do francês Philippe Ariès, causou-me um impacto muito grande. Certos conceitos expostos ali estão comigo de forma muito presente, inesquecíveis. O autor fala sobre a evolução do conceito de criança no período medieval. Tendo como base obras de arte do período, ele analisa uma sociedade que desconhecia este conceito, só vindo a dar valor a esta fase da vida tardiamente. Segundo Ariès, os pequenos, quando retratados, tinham a fisionomia de homens de tamanho reduzido, indicando que provavelmente não houvesse lugar para a infância naquele universo. As crianças eram como que invisíveis, podendo acompanhar o mundo adulto livremente, até mesmo, em momentos mais íntimos de pais e vizinhos.

Na avaliação do autor, era como se não valesse a pena se preocupar com esta fase da vida que tinha um tempo curto e, pelas condições sanitárias da época, a possibilidade de perda era muito grande. Os índices de mortalidade infantil eram acentuados.

 Outra conclusão que o autor chega é de que esta invisibilidade infantil, a não existência do conceito de infância, não criava razões para existirem escolas.

Segundo o autor, baseado numa análise iconográfica, as crianças passam a ser retratadas, só a partir do século XVII, com cara de criança e não mais de homenzinhos. Nos retratos, elas começam a aparecer vestindo roupas diferentes dos adultos. Além disso, tornam-se comuns pinturas que representam a criança morta, demonstrando que as pessoas começavam a se importar com aquela pequena criatura. Não por acaso, a ideia de uma escola parecida com o que temos hoje surge somente a partir da idade moderna. Claro que outros fatores igualmente concorreram pra isso.

Aos amigos que indicam bons livros, devemos agradecer. Nesse caso, devo fazer reverência a dica de minha amiga Mônica Kaseker. O livro foi uma luz pra mim. A História Social da Criança e da Família é daqueles que a gente nunca esquece e acaba se interessando em querer saber mais sobre o autor. Livro bom é assim. Philippe Ariès (A pronúncia do sobrenome é com dois erres, em bom francês. Até disso a gente vai atrás) tem uma bibliografia muito rica e profunda. Claro, ele tem contestadores como todo o bom pesquisador. Afinal, como diz o conceito básico de filosofia: nada é absoluto.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

A História de Sua Vida e A Chegada – Cinema e livro


Comprei por R$ 10,00 reais num Shopping center de Porto Alegre. Era uma daquelas exposições de livros que ficam no meio dos saguões, ficando quase impossível não passar por dentro da livraria improvisada. Vi na capa um aviso que dizia tratar-se do livro com o conto que inspirou o filme “A Chegada”. Bom, se inspirou um filme, pensei, deve ter alguma coisa interessante. Percebi que o anúncio trazia as fotos de dois bons atores de Hollywood que, na hora, não lembrei os nomes, mas, me impressionaram, igualmente.

E não fiquei decepcionado com a qualidade da obra chamada História da Sua Vida e Outros Contos, do escritor norte-americano Ted Chiang, muito pelo contrário, fiquei admirado com tudo que li. Na orelha do livro está lá o resumo de como o autor elabora as histórias. Chiang constrói as mais fantásticas proposições desenvolvidas com extremo rigor científico. E é realmente impressionante o embasamento que ele consegue dar às ideias, mesmo que meio malucas, apresentadas em cada conto. Além da história que inspirou o filme, me lembro que gostei de um outro conto chamado A Torre da Babilônia que é muito divertido e criativo no qual é narrado o processo de construção da famosa torre. Boa parte da história se dá enquanto dois mineradores sobem a torre cujo objetivo é alcançar o céu. É tão alta que já há milhares de pessoas morando nela, são as famílias dos assentadores de tijolo, mineradores, carregadores e pedreiros. Os dois novos mineradores chegaram com a missão de atingir o topo da torre para escavar a abóboda do céu.

Há uma outra história interessantíssima chamada “Setenta e duas Letras”, onde Chiang abusa de conhecimentos científicos para imaginar bonecos de argila que ganham alma, como golens criados a partir de fórmulas mágicas.

Mas, o mais legal de todos é realmente o conto História da Sua Vida. No livro não aparece a referência à hipótese Sapir-Whorf, explicitamente, que é a grande sacada do filme, mas, a ideia está ali. Segundo estes dois pesquisadores, numa explicação bem resumida, a língua de uma determinada comunidade organiza sua cultura, sua visão de mundo, pois uma comunidade vê e compreende a realidade que a cerca através das categorias gramaticais e semânticas de sua língua. Em outras palavras, certas capacidades humanas seriam desenvolvidas conforme a língua falada. Algumas seriam exclusivas de quem fala determinada língua. Isto fica nítido no filme quando a professora contratada para decifrar as mensagens enviadas pelos alienígenas passa a desenvolver uma habilidade muito específica e impressionante.

Um bom livro, um bom filme. Uma história para inspirar o cinema, mas cada um, guardando características específicas.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Meu fiel escudeiro Luís e Dom Quixote de la Mancha

 

Lembro do meu bom amigo Luís lendo Dom Quixote de la Mancha e rindo com as sandices e trapalhadas do cavaleiro andante. Lembro dele achando graça do nome da suposta dama de Quixote, a Dulcinéia del Toboso. Meu amigo num canto da minúscula cozinha e eu no outro naquela meia-água saudosa, do bairro Palmeirinha, onde morávamos no tempo de estudantes em Ponta Grossa, PR. O exemplar era muito bonito. Uma edição especial de capa dura lançada pela editora Abril que fazia parte da coleção Obras Primas. Eu cursava Jornalismo e ele fazia o curso de Processamento de Dados. Éramos amigos desde a infância e tínhamos ido juntos estudar na UEPG.

Até hoje em dia, se questionado sobre um dos melhores livros que leu, Luís dirá, seguramente, que a história do cavaleiro da triste figura está entre as favoritas.

Nem mesmo o texto rebuscado da obra ou o jeito empolado de Dom Quixote falar conseguiu desanimar meu amigo de concluir a leitura daquele clássico da literatura. A tarefa tomou vários dias, período em que meu companheiro de morada, não raras vezes, parava a leitura para mencionar os trechos mais malucos protagonizados pelo cavaleiro, seu cavalo Rocinante, seu fiel escudeiro Sancho Pança e a platônica dama Dulcinéia.

Evidentemente, fui ficando cada vez mais curioso a cada relato do ávido leitor ao meu lado. Líamos à noite e éramos beneficiados por não termos um aparelho de TV na casa, não por opção, mas por falta de condições de comprar um aparelho mesmo. Enfim, líamos depois de frequentarmos as aulas num dos blocos do memorável campus da Universidade na Praça Santos Andrade.

Só mais tarde acabei lendo a obra na íntegra e apreciado mais profundamente o gênio literário de Miguel de Cervantes.

Não vou citar trechos da história que é bastante conhecida, por assim dizer, fazendo parte do inconsciente coletivo. Ao leitor inexperiente da obra completa ou àquele que só ouviu falar dessas aventuras, uma informação importante está logo no começo da narrativa que dá conta do motivo que levou Dom Quixote a cavalgar pelo mundo para defender os mais fracos e indefesos. O famoso fidalgo se dava a ler livros de cavalaria aos montes e lá pelas tantas endoideceu, como nunca jamais caiu louco algum no mundo, encarnando um cavaleiro andante, montado num cavalo magro, portando armas desgastadas e enferrujadas de seus bisavós.

Por tudo isso, eu ainda guardo um luxuoso exemplar que não sei ser ou não o mesmo que lemos há trinta anos atrás. Não importa. É o mesmo livro, são as mesmas recordações e a mesma satisfação em lembrar daquele período especial da vida.

Um abraço ao Luís e ao Dom Quixote.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Viagens e Montanhas de Arlindo Zucchello - para apaixonados como o autor

 

Ao chegar ao topo da montanha mais visitada pelos montanhistas no mundo, a quase seis mil metros de altitude, próximo das bordas do inativo vulcão Kilimanjaro, no dia 21 de novembro de 2011, ele não teve dúvidas, abriu a bandeira vermelha e verde de Concórdia, SC, para fazer a foto no Pico Uhuru, na Tanzânia, no topo da África.

O montanhista/jornalista e dublê de escritor, é concordiense de nascimento, mas, a julgar pelos tantos lugares que já conheceu, pode ser considerado cidadão do mundo. A homenagem ao município natal ele já havia feito ao fim da subida do gelado Elbrus, na Rússia, o ponto mais alto da Europa, a 5.642 metros. Depois, em outro momento, ao chegar ao Monte Caburai, o ponto mais distante do Brasil, no estado de Roraima, mais uma vez fez questão de registrar o momento com uma bandeira de Concórdia e a colocou no lugar do pavilhão nacional corroído pelo tempo, antes alçado por espia de aço em roldanas. 

Os relatos detalhados desses e outros fatos estão registrados no livro Viagens e Montanhas lançado pelo autor em 2016. Ele conta detalhes interessantes de suas empreitadas a pé pelo mundo.

Estão lá a subida ao monte boliviano Huyana Potosi, a aventura até o mítico Everest, entre o Nepal e Tibete, onde alcançou o campo base da famosa montanha e o trajeto de mais de mil quilômetros, feito em 26 dias pelo Caminho de Santiago de Compostela, entre a França e a Espanha, o Monte Caburai, o ponto mais distante do Brasil, no estado de Roraima e a subida ao Monte Vicuñas, 6.067 metros, no Chile, .

Li o livro de Zuchello com imensa curiosidade, afinal, quem não quer ter um pouco de mundo, né? É difícil fugir do jargão e não dizer que “viajei com o autor”, acompanhando as narrativas. Alcancei com ele picos gelados, montanhas cobertas de neblinas, lugares exóticos e surpreendentes e paisagens deslumbrantes.

Não chega a dar bolhas nos pés, nem torções em tornozelos, mas é uma leitura de tirar o fôlego que vale a pena ao final da jornada.

Só um apaixonado faz o que o Zucchello faz. As “escalaminhadas”, como ele diz, já foram tantas que já não cansa mais. “Trilhas e tantos trekkings me propiciaram melhores condições de saúde física e mental”, revela.

Por último, chama atenção o estilo linguístico do autor. Não estranhe a economia de preposições e verbos. A característica dá um sabor especial à leitura e mantém a narrativa em alto nível.



segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

A Reprodução – Meu conceito favorito de Pierre Bourdieu

 

   Foi numa aula de Mestrado em Educação com a minha querida professora Leda Scheibe que fui apresentado ao teórico francês, Pierre Bourdieu. O autor acabou se tornando chave para o pensamento que desenvolvi em meu trabalho final e, rapidamente, tornou-se meu favorito quando assunto era educação. Certos aprendizados são para sempre, aqueles em que o pensador descortina uma nova realidade e faz uma revelação. Pois bem, foi isso.

    Impossível parece falar de Bourdieu sem citar seu famoso “A Reprodução”. Longe de mim querer fazer um resumo do livro ou me aprofundar em algum aspecto. São coisas para gente capacitada realmente, o que não é meu caso. Quero falar de um ponto específico de seus estudos e que, creio, seja basilar do teórico francês e que surge nesta obra.

    Há um conceito comum a vários autores, mas foi com Bourdieu que compreendi melhor. A ideia de que as escolas foram criadas para atender os filhos da elite pode ser encontrado em muitos livros. Foi durante a Revolução Industrial, na Europa, que as escolas, no formato que conhecemos hoje, começaram a surgir. Uma necessidade sentida pelos donos de fábricas e comerciantes que queriam educar os filhos.

    Para Bourdieu, de lá pra cá, isto não mudou quase nada. Em suas pesquisas de campo apontou que estudantes oriundos de realidades privilegiadas eram os que conseguiam a maioria das vagas em universidades e os melhores desempenhos. O mesmo poderia ser dito sobre ensino dos primeiros anos, onde alunos originários de lares com cultura escolar, ou que tivessem herança cultural associada à herança econômica, teriam mais facilidade no processo de alfabetização. Não é difícil imaginar as vantagens para alguém que tenha acesso a livros em casa desde a tenra infância.

Pierre Bourdieu

    O autor conclui, então, que a estrutura existente está aí para reproduzir a realidade e, não, para alterá-la. Até mesmo as exceções fariam parte do jogo, servindo como argumento “do sistema” para iludir os que estão fora do topo. As minúsculas mudanças servem para dizer que o sistema funciona. Se não funciona pra você, o problema não é o sistema, é você.

    É mais ou menos o que concluiu seu conterrâneo Thomas Piketty que ficou famoso ao provar que o capitalismo, deixado a si mesmo, concentra riqueza e não o contrário, criando ricos por herança, não por trabalho de cada um.

    Bourdieu é para mim um teórico brilhante. Suas ideias realmente causaram e causam ainda grande impacto.

    No entanto, lê-lo requer paciência e um interesse genuíno.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Golpe de Mestre – A experiência de ler e depois assistir

 


    Se não me falha a memória (expressão que cada vez faz mais sentido), o primeiro livro que li e que também virou filme foi Golpe de Mestre (1973/74). Neste caso, especificamente, a história foi escrita para o cinema antes e, depois, virou livro. Mas, a ordem dos tratores aqui não importa muito. O que quero abordar é minha experiência de primeiro ler e, depois, assistir na tela.

    Acho que saia da adolescência e havia lido um dos raros livros que caíra em minhas mãos naquele momento de minha vida. Além disso, nos anos 1970, numa cidade do interior, os filmes demoravam muito para chegar. Eram exibidos, praticamente, um ano após terem sido lançados, ou, até mais. Então, relevemos um pouco a certeza das datas.

    Fui ao cinema com grande expectativa e com a história que li ainda fresquinha em minha memória. A história de dois grandes malandros de Chicago, no período pós depressão norte-americana, em meados dos anos 1930, e que planejaram um grande golpe, o Golpe de Mestre, pra cima de um dos maiores gangsters do país. O filme retrata o período duro que os norte-americanos viviam com fome, desemprego, Lei Seca e jogatinas com vigaristas aplicando golpes uns nos outros.

    Aos poucos fui percebendo que a história, apesar de seguir basicamente o que estava no livro, não repetia perfeitamente o enredo da obra escrita. Um misto de admiração e decepção apesar do excelente filme que assistia. Esperava saber passo a passo o que aconteceria. Mas, qual nada. Até o final da história foi diferente.

    A experiência, claro, mais tarde, mostrou seu valor. O cinema se inspira em histórias escritas para criar em outro formato, praticamente, uma nova história. Um filme nunca será igual ao livro.

    Sei que li um bom livro e vi um excelente filme, vencedor do Oscar em sete categorias com atuações memoráveis da dupla Paul Newman (Henry Gondorff) e Robert Redford (Johnny Hooker).

    Recentemente, ao buscar informações para este texto, encontrei a informação de que o roteirista do filme, David S. Ward, montou o enredo inspirado em fatos reais protagonizados pelos irmãos Fred e Charley Gondorff que estão documentados por David Maurer em seu livro The Big Con: The Story of the Confidence Man.

    Posteriormente, li outros livros que viraram filme e vice e versa e, evidentemente, nunca mais esperei ver a história se repetir perfeitamente na tela, o que, convenhamos, seria meio chato.


quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Contos de Guerra de um pacifista

 

    O primeiro que li foi Guernica-1937. Um amigo meu, dentista, Fábio Zardo, me enviou via Whatsapp, sugerindo a leitura e solicitando um retorno com a minha opinião sobre a história. Era um conto muito breve, cerca de duas páginas, sobre uma garça branca, chamada Tuk, responsável por uma das mais perfeitas manobras de guerra de que se têm notícia. Gostei muito e, claro, avisei meu amigo que disse que providenciaria um encontro com o autor da obra. Fato que aconteceu algum tempo depois quando mantivemos uma conversa bastante amigável via internet.

     Antes do encontro virtual, no entanto, eu já havia adquirido o livro do médico/escritor paranaense Azarias Porto Ribeiro. Nas páginas centrais estava a história de Tuk, a garça branca, minha conhecida, misturada a outros contos, igualmente, criativos e muito bem escritos. 

    O poeta é realmente um fingidor. Azarias nunca foi soldado, não foi pra guerra, é um pacifista, mas escreve sobre o tema como se fosse conhecedor.  Na conversa que tivemos, tranquilo, como um bom pacifista, ele comentou sobre sua obra e o prazer que sente ao escrever.

    Contos de Guerra (2020) é, por este ângulo, paradoxal. Um grande desafio vencido pelo escritor que conseguiu narrar acontecimentos da vida em meio a um cenário de mortes.

    São treze contos agradáveis de se ler. As batalhas ficam realmente como pano de fundo e em nada interferem nas narrativas criativas, emocionantes, românticas, engraçadas e fantásticas criadas pelo médico nascido em Primeiro de Maio, pequena cidade do norte paranaense. Além de Guernica, me impressionei com Stalingrado - 1942 e seu personagem analfabeto amante de poesias, com Normandia-1944 e o pescador que salvou uma sereia e recebeu um dos melhores presentes da vida ou ainda com a mãe que tira o filho do front e salva-lhe a vida em Norte da Europa - Séc. 18 e o elefante que impede uma batalha por gostar de banhos demorados na história Carolina do Sul - 1863.

    Enfim, Contos de Guerra serve para lembrar de como é bom ler algumas historinhas curtas de vez em quando. É prazer garantido! Bons amigos servem para indicar bons livros.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Oliver Twist é genial e fácil de ler

     David Wark Griffith foi um dos primeiros revolucionários do cinema. Ele mudou um paradigma e criou um jeito de fazer cinema que permanece até hoje. Num tempo em que o cinema imitava o teatro, isto é, as cenas eram filmadas, do começo ao fim, de um único ângulo, ele ousou com closes e movimentos de câmera. As mudanças provocaram reações gerais, tanto de produtores quanto de atores, que diziam que a plateia pagava para ver os personagens de corpo inteiro. Além disso, observavam com severidade, como poderiam os espectadores compreender os saltos no tempo e espaço. Uma das respostas do inovador diretor era de que Charles Dickens escrevia assim. O escritor inglês era uma de suas maiores inspirações para fazer o novo cinema.

    Griffith enalteceu a obra de Dickens e as duas artes se cruzavam intensamente já lá nos idos de 1910.

    Foi a partir da leitura da obra do cineasta que me interessei por ler Dickens e o primeiro livro que deliciosamente devorei página a página foi Oliver Twist.

    O menino órfão, que dá nome à história, acaba se juntando a uma gang que procura iniciá-lo em uma vida de crimes. É Londres no século XIX, capitalista e injusta, que leva o menino ao submundo da sociedade. A partir daí ele vai comer o pão que o diabo amassou nas mãos de tipos deploráveis que cruzam seu caminho.

    Dickens é mestre na descrição das personagens e faz o leitor se apaixonar pela história. A riqueza de detalhes de cada uma é impressionante, criando imagens que ficam marcadas na mente de quem lê.

    A crítica social é bastante presente na obra, realçando a pobreza generalizada, a grande distância entre ricos e pobres, violência, pessoas e instituições corruptas que agem sempre em busca de dinheiro, pensando em levar alguma vantagem.

    Enfim, uma obra genial como foi também o trabalho cinematográfico de David Griffith que, por razões óbvias, reconheceu o talento do escritor inglês e mudou o cinema.

    Uma ótima leitura!!


quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Sapiens – Uma breve história da humanidade ou a história do terrorista do ecossistema?

 

    Ler Sapiens – Uma breve história da humanidade (2011), de Yuval Noah Harari foi, no mínimo, intrigante. Logo de cara ela faz um relato revelador sobre a característica devastadora do homo sapiens ao longo de sua evolução enquanto se espalhava pelo planeta. Segundo o autor, as primeiras vítimas teriam sido as outras espécies humanas como os neandertais que desapareceram na disputa pelo meio ambiente. Assim como conhecemos diversas espécies de ursos ou felinos, por exemplo, havia espécies diferentes de humanos. O homo sapiens atravessou o oceano para chegar a Austrália e transformar o ecossistema do continente, fazendo desaparecer a megafauna composta por animais como cangurus de 200 quilos e coalas gigantes. A epopeia humana seguiu para a América, onde os caçadores coletores dizimaram dezenas de grandes espécies, entre elas, mamutes, mastodontes e o tigre-de-dente-de-sabre.

    Harari não perdoa a espécie humana e a qualifica, ao final, de terror do ecossistema. E assim, segue na tentativa de resumir o processo evolutivo humano.

Obras como esta, tão ricas em informação, podem causar impactos diversos no leitor conforme os preconceitos de cada um. Cada um se envolve ou se deixa envolver por este ou aquele aspecto. É possível encontrar no livro uma teoria interessante defendida pelo autor ao concluir que a humanidade era mais feliz antes do período agrícola. Os caçadores-coletores levavam uma vida mais saudável. A ideia de que os agricultores levavam uma vida farta e agradável é uma fantasia, diz ele no capítulo “A maior fraude da história”.

    A partir de 70 mil anos atrás o homo sapiens desenvolveu novos saberes e novas formas de comunicação tornando-se, assim, o ser humano de nossa atualidade. Antes disso, surgiu o desafio de adaptar-se a posição ereta. As mulheres sofreram mais, pois andar assim exigia quadris mais estreitos, apertando o canal do parto, por exemplo. É por isso que no ser humano ocorre um nascimento dolorido e precoce. Mesmo sem estar pronto, o bebê é obrigado a nascer. Enquanto em outras espécies os filhotes saem caminhando e até trotando, os humanos são extremamente frágeis.

    Por fim, fica uma discussão interessante e sempre atual sobre a criação da inteligência artificial e a busca pela imortalidade, desejos alimentados pela eterna insatisfação humana.

    Que livro!!


terça-feira, 26 de outubro de 2021

Uma História da Leitura com muitas histórias

 

    O psicólogo James Hillmann afirma que a pessoa que leu histórias ou para quem leram histórias na infância “está em melhores condições e tem prognóstico melhor do que aquela à qual é preciso apresentar as histórias. […] Chegar cedo na vida já é uma perspectiva de vida”. A citação está presente no livro do argentino Alberto Manguel, Uma História da Leitura (1997). É uma das muitas passagens da obra que exaltam o valor da leitura e a importância dos livros na evolução humana. O autor nasceu em Buenos Aires, mas virou cidadão do mundo, pois morou na Itália, na França, na Inglaterra e no Taiti. Depois se tornou cidadão canadense.

    Manguel revela que aprendeu a ler sozinho, decifrando os caracteres logo aos quatro anos. “Foi como adquirir um sentido inteiramente novo”, escreveu. A escrita veio depois. Por isso, ele diz que a leitura precede a escrita. Tornou-se um leitor voraz enquanto permanecia em casa durante as ausências do pai que viajava muito nas funções de diplomata. Tinha uma biblioteca particular gigante à disposição. 


     No livro, narra experiências a partir de suas leituras.
E esclarece logo que o livro é o resultado de sua história da leitura, e não a única história. O trabalho de Manguel é enriquecedor. Conta trocentas mil histórias das mais variadas origens e para todos os gostos. Algumas não saem mais da cabeça da gente. Tem aquela de dois visitantes que chegam na residência de Santo Agostinho e flagram-no no silêncio do jardim no momento da leitura. Escondidos para não atrapalhar, espiam admirados o Santo ler com os olhos e não com os lábios, como acontecia naquele tempo. Era um período em que, alguns poucos privilegiados de então, evidentemente, faziam leitura em voz alta para grupos. Ler com os olhos não era uma capacidade comum.

    Outra passagem interessante é aquela em que o autor compara a leitura de pergaminhos em rolo com o que acontece hoje quando lemos num computador. Ele diz que voltamos ao antigo formato de livro que revelam apenas uma parte do texto de cada vez, à medida que “rolamos” para cima ou para baixo. Não é perfeita a comparação? Perfeita. Perspicaz, não é?

    Enfim, um livro memorável. A leitura fácil, graças ao estilo do autor, ajuda muito e faz o exercício fluir. Uma História da Leitura é uma viagem através do mundo. Ler, realmente é viajar.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

A Sociedade Midíocre de Juremir

 

    Já falei do Juremir Machado da Silva no texto anterior e falo de novo. Ele tem uma excelente coluna de opinião no jornal Correio do Povo de Porto Alegre. Tanto na edição impressa quanto na digital, ele consegue fazer análises muito aguçadas sobre acontecimentos diários que vão construindo a nossa realidade. Juremir comenta com a autoridade de quem fez o pós-doutorado (1998) na França orientado por Edgar Morin, Jean Baudrillarde Michel Maffesoli. É jornalista e historiador, autor de dezenas de livros e tradutor de muitos outros. Quando li A Sociedade Midíocre. Passagem ao Hiperespetacular: o fim do direito autoral, do livro e da escrita (2012), pude ver um pouco mais de um conceito frequentemente abordado por ele em sua coluna diária. A partir da ideia de que hoje em dia todo mundo é autor, todo mundo é escritor ou, pelo menos, aqueles que se manifestam pela internet assim imaginam, ele analisa o comportamento de nossa sociedade onde há mais emissores de mensagens do que receptores.

Juremir é jornalista e historiador

    Agora todos estão no palco, não há mais a divisão entre a plateia e o palco. Todos são celebridades no mundo do hiperespetáculo. O importante neste mundo não é exatamente a informação. Distrair passou a ser certamente uma estratégia de sobrevivência, inclusive do jornalismo. E a distração não suporta muito conteúdo. Um mundo chega ao fim, diz Juremir. Surgirá, na Sociedade Midíocre, enfim, o homem plenamente contemplativo, sem cérebro, ou com um cérebro reduzido a funções mínimas e também sem pernas, dado que todo o deslocamento será virtual.

    O autor conclui que será o fim dos autores, fim do livro impresso e do e-book. E, mais ainda, o fim da escrita. Começa um novo mundo.

    O livro todo é cheio de recortes com frases muito bem construídas que fazem o leitor refletir a cada passo. “A sociedade “midíocre” foi mais longe e deu visibilidade a personagens obscuros”, ele diz. Quer frase mais reveladora do que esta?

    Viva Juremir Machado da Silva!!!



domingo, 12 de setembro de 2021

Você vai ficar mais rico lendo O Capital no Século XXI

 

    Foi num texto do excelente colunista gaúcho do Correio do Povo, Juremir Machado da Silva, que encontrei uma boa storyline sobre a obra do francês Thomas Piketty. De acordo com o colunista, o economista francês Thomas Piketty ficou famoso ao provar que o capitalismo, deixado a si mesmo, concentra riqueza e não o contrário, criando ricos por herança, não por trabalho de cada um. A partir deste comentário de Juremir me interessei pela leitura. Em O Capital no Século XXI (2013) nos deparamos com um levantamento de dados impressionante sobre os caminhos percorridos pelo capital ao redor do mundo nos últimos 300 anos. Evidentemente, os dados de países desenvolvidos são mais precisos e também mais antigos. O autor buscou informações relacionadas as declarações de renda das populações. Neste sentido, o Brasil, praticamente ficou de fora das avaliações do escritor por ter criado uma legislação fiscal só recentemente, ou seja, há menos de 100 anos.


     Piketty faz a conclusão óbvia para quem tem um mínimo de percepção sobre as condições de vida atuais e nosso planeta, só que faz isso com um rico embasamento. Ele põe por terra a ideia da meritocracia, deixando claro que o universo dos mais ricos não muda. O fato de alguém furar a bolha, saindo de uma condição adversa, constitui-se uma exceção à regra que, ao mesmo tempo, serve para legitimar o sistema, passando a ideia de que funciona. Enfim, do jeito que as coisas andam nunca haverá distribuição de renda justa no planeta e os que têm mais terão cada mais.
Thomas Piketty, de esquerda sem ser marxsista.

Ao longo da leitura, parece ser uma expectativa legítima que o leitor queira saber o posicionamento do autor. Uma posição que parece ser óbvia, afinal, se ele condena o capitalismo como sistema capaz de tirar o mundo da pobreza. Piketty se revela de esquerda mas sem ser marxsista. Coisas de nosso tempo.

    Uma peculiaridade da narrativa de Piketty é o uso frequente de referências de romances de época como os de Jane Austen e Honoré de Balzac. Usa estes dois escritores para ilustrar como, no início do século XIX, as pessoas obtinham renda e faziam investimentos. Mostra com as obras como era lógico desdenhar o trabalho a favor do casamento pela riqueza.

    A leitura de O Capital no Século XXI certamente deixará o leitor mais rico, culturalmente, é claro. Mas, o enriquecimento não se dará do dia para a noite já que a obra exige um fôlego especial dado ao volume expressivo de páginas.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

O Poder dos Quietos

     Assisti a uma palestra com a escritora Susan Cain falando de “O Poder dos Quietos” no TED, instituição norte-americana que oferece palestras grátis na internet. Na rápida apresentação, característica destas palestras, ela me fisgou com o tema. Quando disse que possuía um livro no qual ampliava ainda mais a discussão, eu me interessei e logo encomendei a obra. O Poder dos Quietos (2017) foi uma grande revelação. Eu sempre fui o tal do aluno “invisível” em sala de aula. Ficava lá no fundão e não abria a boca pra nada. Quando era chamado para falar alguma coisa, eu mudava de cor, sentia falta de ar e a voz saia com dificuldades.

    Susan Cain me revelou algo que eu precisava saber há muito tempo. Segundo ela, não só em relação ao ser humano, mas, ao reino animal, de um modo geral, um terço das populações tem este comportamento introspectivo. O exemplo dos peixes ao redor do anzol talvez seja o melhor para explicar. Sempre há aquele grupo que se lança imediatamente para pegar a minhoca e há uma parte que fica rodeando a situação para atacar quando tudo estiver mais calmo. Estes últimos fazem parte do um terço que “pensa” muito antes de entrar em ação. 


     Em relação à sala de aula, ela diz que, não raro, os “quietos” são bons alunos, estudiosos, concentrados e que não atrapalham o andamento da lição do professor, mas sofrem com a pressão para serem o que não são, ou seja, crianças extrovertidas e com boa capacidade de expressão. São até hoje alvo de bulling dos colegas e mesmo de professores despreparados. Senti na pele muitas situações narradas pela autora. As boas notas que tirava quase nunca foram suficientes para fazer os professores entenderem que o meu potencial era aquele ali, o de um aluno quietinho, mas concentrado e que aprendia muito com os outros colegas.

     Susan Cain afirma que se trata de pessoas que gostam de escutar a falar, ler a ir a festas; que inovam e criam mas não gostam de autopromoção e que são responsáveis por muitas das grandes contribuições à sociedade.

    Depois que me tornei professor, pude aplicar esse conhecimento em sala de aula ao entender melhor como funciona a cabeça deste tipo de aluno. Tentei respeitar o tempo de cada um, mesmo nas aulas de oratório quando chegava o grande momento.

    É mais uma obra pra gente, sem alarde, bem quietinho, quase invisível, começar a ler e se conhecer um pouco mais. Os livros têm poder!


segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Intrigas na colonização italiana

 

    Por conta de um projeto para escrever sobre a história de nossa família, fui atrás de leituras de livros sobre a imigração italiana. Li vários e um deles chamou muito a minha atenção. Não sei exatamente o porquê, mas não imaginava terem ocorrido desavenças mais sérias entre conterrâneos italianos em solo brasileiro. A partir de 1870 até os primeiros anos do século XX milhares de imigrantes atravessaram o Atlântico em busca de uma nova vida.

    A escritora gaúcha, Maíra Ines Vendrame, em sua obra, O Poder na Aldeia (2016), mostra que, como em qualquer outra sociedade humana, a vida nas vilas formadas pelos italianos teve momentos de atritos. O subtítulo do livro dá uma boa indicação da narrativa seguida por ela: “Redes sociais, honra familiar e práticas de justiça entre os camponeses italianos (Brasil-Itália)”. O trabalho da autora aborda o processo de colonização ocorrido no centro do Rio Grande do Sul, em Santa Maria, na colônia Silveira Martins, chamada de Quarta Colônia. A ocupação iniciou por volta de 1876 se estendendo até o início do século XX. 


    Maíra começa contando da morte do padre italiano Antônio Sório que havia atuado junto à colônia italiana durante 14 anos. Foi morto numa emboscada, atacado por três homens, recebendo golpes violentos no “baixo ventre”, conforme notícia corrente à época.

    Outro padre italiano, Vítor Arnoffi, também teria fim trágico. O suicídio cometido, de acordo com relatos, estaria ligado à gravidez da criada da casa paroquial. Além desses episódios, o livro apresenta atritos de natureza política e religiosa, ocorrências de transgressões sexuais, gravidez indesejada, a defesa da honra, bebedeiras, brigas de bar e mortes de vizinhos.

    Claro, o livro não trata apenas de temas turbulentos, mas reserva uma parte importante da pesquisa para apontar esta faceta da sociedade em formação. Pelo inusitado, ao menos para mim, esse viés da história  chamou muito a atenção.


     A pesquisa que resultou neste trabalho foi apresentada como tese para doutoramento em história na PUC/RS, em 2013. O brilhantismo da autora na abordagem foi reconhecido pela Associação Nacional de História (ANPUH/RS) com o prêmio de melhor tese de doutorado em 2015.

    Foi com enorme prazer que desfrutei página a página deste livro. Uma obra muito bem escrita que fala de um período importantíssimo de nossa história. Fiquei ainda mais feliz quando pude conversar com a autora através de uma reunião virtual e perceber o quanto ela está focada neste trabalho de pesquisa da imigração. Além da enorme simpatia, sem dúvida, Maíra é uma das pesquisadoras mais respeitadas neste campo atualmente.

    Foi uma das minhas melhores leituras.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O Coração das Trevas em Apocalipse Now

     Quando assisti "Apocalipse Now" (1979), provavelmente em um cinema de Porto Alegre, em 1980, onde morava, não fazia a menor ideia do processo conturbado de produção e dos bastidores malucos que envolveram o filme. Tampouco sabia tratar-se de uma obra baseada no romance do escritor britânico de origem polonesa, Joseph Conrad, O Coração das Trevas, no original Heart of Darkness (1902). Fui atraído pela grande propaganda existente e comentários a respeito da trilha sonora roqueira com Rolling Stones, The Doors e Credence.  Dizem que o diretor Francis Ford Coppola usou muito improviso durante as gravações, alterando e incluindo cenas e falas na noite anterior às filmagens. Para tanto, levava por toda a parte o livro de Conrad. 

    Quando li O Coração das Trevas fiquei muito admirado com a narrativa e magnetizado pela história depois de saber da relação com o filme. Queria ler rapidamente para conhecer os detalhes do romance inspirador de Coppola.

    Na história original, o Capitão Marlow é incumbido de realizar uma viagem à procura de Kurtz, um comerciante de marfim que teria enlouquecido nas florestas africanas do Congo Belga. Na película,o capitão do exército norte-americano, Benjamin Willard, navega numa barcaça pelas florestas do Vietnã, em busca de um oficial de nome Kurtz.

    Ao concluir o filme, o diretor resumiu o inferno que foi a produção da obra: “Meu filme não é sobre o Vietnã, meu filme é o Vietnã”, disse.

    Só para se ter uma ideia das confusões ocorridas durante as locações nas Filipinas, o protagonista Harvey Keitel foi trocado na última hora por Martin Sheen, Coppola teve um ataque de nervos, Marlon Brandon quase não termina de gravar as cenas finais e Martin Sheen teve um ataque cardíaco.

    Não dá para comparar filme e livro, mesmo porque, como alguém já disse O Coração das Trevas é inadaptável. O que ocorreu com Coppola e sua trupe foi uma inspiração na história de Conrad para uma nova construção, num novo formato. O filme ficou sensacional, mas livros serão sempre extraordinários, capazes de fazer nossa imaginação ir além, muito além do que qualquer outro formato é capaz de nos levar.



Drácula de Stoker tem todos os elementos que conhecemos nos últimos 100 anos

      Filmes de vampiro sempre me deram muito medo. Na verdade, qualquer filme de terror sempre me deixava muito impressionado durante e dep...